Não seria loucura comparar a história de Rick Wright no Floyd com a de John Entwistle no The Who, John Paul Jones no Led Zeppelin e George Harrison nos Beatles. Todos eram talentos incontestáveis, porém tiveram seus brilhos ofuscados pelos demais integrantes que dominavam a arte de compor e lideravam as bandas. Há de se dizer que essas pessoas eram, nada mais nada menos, que Lennon, McCartney, Daltrey, Townsend, Page e Plant. Músicos que escreveram seus nomes na história com parcerias deveras notáveis e canções eternas. Havia química, um entrosamento incomum, uma compatibilidade de idéias que resultou no sucesso absoluto e indelével desses músicos em suas bandas. Ainda sim, esses solitários gênios souberam aproveitar o pouco espaço que lhes sobravam para compor ou até mesmo contribuir de forma marcante na história de suas bandas.

Rick Wright - Pink Floyd
Rick tinha como “adversários” Syd Barrett, Roger Waters e David Gilmour. No início, o líder da banda em todos os sentidos era Barrett. Praticamente dono de todas as letras e melodias, ele se destacava no mundo underground com músicas ácidas, letras infantis e aparições inusitadas. As apresentações eram épicas e uma música poderia ter mais de 20 minutos de duração. Surgia ali o rock progressivo. E essa contra-cultura, esse novo modelo estrutural de composições, ou seja, essa reformulação do contexto musical em si foi muito bem absorvida por Waters e, principalmente por Rick Wright. Com seu órgão Farfisa, ele adequou cada nota e acorde às manifestações visuais ou cênicas da banda. Enquanto Barrett brilhava com uma performance emblemática e seus cabelos lambuzados de Mandrax, completamente alucinado pelo uso de LSD, Rick recheava as músicas com muita propriedade e maestria com solos e acordes carregados de psicodelia.
No segundo disco da banda (Saucerful of Secrets), Rick contribuiu com duas composições que refletem bem a essência do rock progressivo: “See Saw” e “Remember a day”.
Com o sucesso do Floyd e a saída iminente de Syd por abuso no consumo de drogas pesadas, houve um período em que tiveram muitas dificuldades para encontrar um substituto à altura do até então líder da banda, que já não compunha mais e faltava a ensaios e shows. David Gilmour foi chamado para substituir Syd nos momentos críticos, tanto na guitarra, quanto nos vocais. Chegou a fazer alguns shows junto com Syd, porém essa situação ficou insustentável por causa de compromissos e contratos fechados pela banda, o que culminou na saída definitiva de Syd. Contudo, seu precioso legado causou um incômodo na banda pois o espírito psicodélico da banda estava concentrado no comportamento e na musicalidade de Syd. Algumas tentativas frustradas de Waters e mesmo de Wright, foram provas de que o Floyd não sobreviveria sem o “diamante louco”…

Pink Floyd
Mas com “Meddle” e “Atom Heart Mother”, essa profecia não se cumpriu. Com as verdadeiras obras-primas “Echoes”, “Fearless”, “Atom Heart Mother”, “One of These Days”, “Fat Old Sun” e “Summer´68”, de Rick Wright, a banda se reinventou, voltou a se destacar e a figurar entre as grandes da Inglaterra.
“Summer´68” é considerada uma das melhores músicas de todos os tempos do Pink Floyd. Rick mostrou que podia contribuir de forma rica e singular e passou a ser respeitado pelo mundo musical.
Em termos musicais, Wright sempre foi um dos mais estudiosos da banda e tinha influência do blues e do jazz. E isso pode ser notado nos álbuns seguintes e mais representativos do Floyd. No disco “Wish You Were Here”, Wright contribuiu de forma expressiva na suíte “Shine on You Crazy Diamond”. Todavia, foi em “Dark Side of the Moon” que Rick atingiu seu auge na banda com colaborações notáveis em “Time” e “Eclipse”, com a base musical de “Us and Them” e com a genial e emocionante “Great Gig in the Sky”, interpretada por Clare Torry.
Nessa altura, mesmo com Gilmour sendo o principal vocalista e um guitarrista excepcional, quem dominava as composições com excelência era Roger Waters. Ele assumiu naturalmente a liderança da banda, graças ao sucesso dos últimos álbuns pois praticamente todas músicas eram de sua autoria.
Em seguida veio o político e excêntrico álbum “Animals”. E, mais uma vez, Roger era o dono de todas composições. Em músicas como “Sheep”, “Dogs” e “Pigs”, a contribuição de Rick foi fantástica. Seus teclados estão onipresentes em todas elas.

Rick Wright em Pompeii
O sucesso começou a afetar as relações pessoais dentro do grupo. Trabalhos solo eram a única saída para os demais integrantes da banda e Wright realizou “Wet Dream” em 1978.
Em 1979, o Floyd gravou o álbum duplo “The Wall” que consagrou de forma definitiva o Pink Floyd, colocando a banda entre as melhores de todos os tempos na história do rock e projetando Roger Waters como ativista e como respeitado compositor. Roger assumiu o controle total da banda. Rick Wright foi afastado logo no processo de criação e concepção, o que resultou na sua expulsão da banda durante as gravações de “The Wall”, apesar de mais tarde participar dos shows como músico convidado.
No disco “Final Cut”, a banda só contava com Mason, Gilmour e Waters. Porém, após muitas brigas, a banda chegou ao fim. A convivência com Roger Waters se tornou insuportável, devido a suas posturas autoritárias e atritos constantes com músicos e produtores.
Rick se juntou a Dave Harris, montou um grupo chamado “Zee” e gravou um bom disco intitulado “Identity”.
Após longas e incansáveis batalhas na Justiça, Gilmour conseguiu o direito de usar o nome Pink Floyd, convidou Wright e Mason para gravarem um novo disco. Era a volta da banda, para desgosto de Waters. Lançaram “A Momentary Lapse of Reason” com belas composições como “On the Turning Away” e “Learning to Fly”. Porém o disco foi um fracasso de crítica.

Rick Wright
Em “The Division Bell”, o melhor disco da “era Gilmour”, a contribuição de Wright foi essencial e marcante. Com a suas co-autorias nas músicas “Cluster One”, “What Do You Want From Me”, “Marooned” e “Keep Talking” e, principalmente, “Wearing the Inside Out”, Wright selou definitivamente sua competência como músico e compositor.
Em 1996, Wright gravou “Broken China”, seu último trabalho solo. O disco foi gravado e produzido por ele em seu próprio estúdio e contou com a participação de músicos renomados.
Após 24 anos separados, Wright, Mason, Waters e Gilmour se reuniram e voltaram a tocar como Pink Floyd em prol do fim da pobreza extrema na África. Foi um momento histórico e um marco para a banda. Apesar de inúmeros boatos sobre a volta definitiva da Floyd, isso não ocorreu e se tornou impossível com a morte de Wright, em 15 de setembro de 2008.
Seu importante legado reune obras-primas como “Paint Box”, “Remember a day”, “See Saw”, “Summer´68”, “Sysyphus”, “Great Gig in the Sky” e “Wearing the Inside Out”, além de belas parcerias em outras canções.
Apesar do papel coadjuvante, é quase consenso entre antigos fãs que os teclados de Richard Wright apresentavam-se como elemento fundamental para a constituição do som do Pink Floyd.
Em setembro, completam 4 anos de sua morte e a Banda Echoes – Pink Floyd Cover pretende fazer uma homenagem tocando um bloco inteiro de seu show apenas com músicas desse gênio dos teclados, das composições e das harmonias.
Texto de Rics “Barrett” Carvalho


















